A maioria das empresas de tecnologia passou 2025 enxugando quadros. Meta, Google, Amazon — todas passaram por ondas de demissões. O setor chegou a um consenso silencioso: fazer mais com menos gente e deixar a IA resolver o resto.

A OpenAI leu o cenário e fez o oposto.

Segundo o Financial Times em 25 de março, a OpenAI planeja quase dobrar seu quadro de funcionários — de 4.500 para 8.000 até o final de 2026. São cerca de 12 contratações por dia pelo resto do ano. As novas vagas vão de desenvolvimento de produto e engenharia a pesquisa e vendas. Um cargo chama atenção: "technical ambassadors" — especialistas em vendas enterprise que ajudam grandes empresas a implantar ferramentas da OpenAI. É o playbook da Salesforce, reembalado num moletom de startup.

O combustível por trás disso: a OpenAI fechou a maior rodada de investimento privado da história em 19 de março. US$ 110 bilhões com valuation post-money de US$ 840 bilhões — o preço que os investidores concordam que a empresa vale depois que o aporte entra. A Amazon liderou com US$ 50 bilhões, SoftBank e NVIDIA contribuíram com US$ 30 bilhões cada. O SoftBank financiou sua parte vendendo ações da NVIDIA para investir numa empresa que paga a NVIDIA por computação. Lógica de venture capital no seu estado mais puro.

Parte desse capital alimenta o Stargate — uma joint venture com o SoftBank, atualizada em 22 de março, para construir US$ 500 bilhões em infraestrutura de data centers de IA ao longo de quatro anos. Meio trilhão de dólares em fazendas de servidores. Isso não é uma aposta de produto. É um império de infraestrutura.

Por que a pressa?

Um nome: Anthropic. Um relatório de gastos da Ramp publicado em 17 de março revelou que a Anthropic captura 73% dos orçamentos enterprise de empresas comprando IA pela primeira vez — ou seja, quando uma empresa compra ferramentas de IA pela primeira vez, ela escolhe o Claude, não o GPT. Contratos enterprise iniciais tendem a grudar. Empresas raramente trocam depois de uma integração profunda. A OpenAI não está apenas perdendo negócios. Está perdendo lock-in — aquele tipo que se acumula por anos.

A conta que vale a pena observar ⚙️

8.000 funcionários com uma remuneração total média de US$ 400 mil — padrão para talentos de IA em São Francisco — colocam a folha salarial anual em US$ 3,2 bilhões. A empresa gera estimados US$ 5–6 bilhões em ARR (receita recorrente anual — a receita total de assinaturas por ano). A receita cresce, mas o burn rate também — a velocidade com que uma empresa gasta dinheiro além do que fatura.

O Stargate é a peça que mais acompanho. OpenAI e SoftBank construindo o equivalente em IA de uma ferrovia transcontinental. Se funcionar, eles controlam a camada de infraestrutura de toda a economia de IA. Se travar, vira o projeto de construção mais caro que ninguém precisava.

A contradição silenciosa

A OpenAI é uma empresa de IA que acredita que a IA vai automatizar a maior parte do trabalho intelectual. E está contratando 3.500 humanos para fazer trabalho intelectual. Em algum momento, essas duas narrativas colidem. Se o seu próprio produto não consegue substituir as vagas que você está preenchendo, o que isso diz sobre o produto? Se consegue — por que você está contratando?

Todo problema é um problema de processo. Jogar 12 pessoas por dia num gap de market share não é um sistema. É uma reação. O resultado depende dos processos que eles construírem em torno dessas pessoas — não do headcount em si. 🧘

A jogada mais calma numa guerra de contratações é saber exatamente quais 500 pessoas você realmente precisa. Todo o resto é ruído.