Você conhece o roteiro do acqui-hire. Empresa grande compra startup, fica com o time, mata o produto. O time é o ativo — a tecnologia é só a desculpa pra transferir o dinheiro.

A SpaceX inverteu o jogo. Em 1º de abril, a SpaceX protocolou confidencialmente um pedido de IPO — meta inicial: US$ 1,75 trilhão. Até 8 de abril, a Bloomberg reportou que o número já passava de US$ 2 trilhões nas conversas com investidores iniciais. O plano: captar até US$ 75 bilhões com 30% de alocação para investidores de varejo — de três a seis vezes o que é normal. Se junho sair como planejado, será a maior oferta pública da história, superando a estreia da Saudi Aramco em 2019.

Embutida nesse número está a xAI, a divisão de IA do Musk e a casa que o Grok construiu. Todos os 11 cofundadores originais saíram até 28 de março. Mas o pedido de IPO força uma pergunta que importa mais do que as saídas em si: como ficam os números financeiros sem eles?

O preço da brincadeira

O prospecto coloca números na xAI pela primeira vez. Último trimestre antes da fusão com a SpaceX: US$ 107 milhões de receita contra US$ 1,4 bilhão em perdas. Um bilhão de dólares queimado a cada três meses. Com um valuation combinado de US$ 2 trilhões, investidores pagam mais de 80 vezes a receita futura. Pra ter uma ideia: a Nvidia negocia a 20x. A Apple a 8,8x.

O Grok 5 — o modelo de próxima geração que supostamente justificaria esses múltiplos — perdeu o prazo de treinamento no Q1 2026. Agora mira o Q2. Segundo relatos, o modelo roda 6 trilhões de parâmetros numa arquitetura MoE (mixture of experts — ativa apenas uma fração dos parâmetros por tarefa pra economizar computação). Nada disso aparece nas notas oficiais de lançamento da xAI.

O livro de saídas

As saídas se desenrolaram ao longo de dezoito meses. Igor Babuschkin saiu em 2024. Christian Szegedy seguiu no início de 2025. Fevereiro de 2026 estourou como uma barragem: Tony Wu e Jimmy Ba saíram entre 10 e 11 de fevereiro. Kyle Kosic, Greg Yang e Toby Pohlen saíram no mesmo mês. A xAI tinha nomeado Pohlen para liderar o "Project Macrohard" — um agente de IA projetado para automatizar trabalho de escritório. Ele saiu semanas depois da nomeação. A xAI pausou o projeto.

No início de março, Guodong Zhang e Zihang Dai já tinham ido embora. Manuel Kroiss (líder de pré-treinamento) e Ross Nordeen saíram entre 27 e 28 de março. Cerca de uma dúzia de engenheiros seniores seguiram o mesmo caminho. Cada arquiteto, cada líder de pré-treinamento, cada pesquisador que projetou o sistema — todos foram embora.

A resposta do Musk, em 16 de março: "A xAI não foi construída direito da primeira vez, então está sendo reconstruída desde os alicerces." Entre as reposições estão recrutas do Cursor, o editor de código com IA.

A conta de luz

O que a SpaceX de fato ganhou foi hardware. O Colossus 2, datacenter da xAI em Memphis, opera a 1 gigawatt e está expandindo para 1,5 GW — energia suficiente para abastecer 750 mil casas. Em Southaven, Mississippi, a xAI instalou 27 turbinas a gás sem licenças de qualidade do ar, violando o Clean Air Act. A Earthjustice e o Southern Environmental Law Center processaram. O Comitê de Licenças do Mississippi aprovou 41 turbinas permanentes em março, mas em 9 de abril, a NAACP e coalizões locais entraram com recurso. "Data centers não podem ser construídos nas costas de comunidades em situação de risco", disse Abre' Conner, Diretora de Justiça Ambiental e Climática da NAACP.

Os processos estão em andamento. A expansão continua de qualquer jeito.

O que isso significa pra você

Se você é desenvolvedor avaliando apostas de plataforma, a API da xAI funciona hoje. O Grok existe, o tier enterprise existe, os preços são mais baixos que a concorrência. Mas estabilidade de plataforma não é só uptime — é saber se as pessoas que entendem as entranhas do sistema ainda vão estar lá quando algo quebrar. Cada saída de cofundador é memória institucional saindo pela porta.

Se você está de olho no IPO, a questão é aritmética: a 80x a receita com um bilhão de dólares de prejuízo trimestral, o que exatamente você está comprando? Não é o time — já saíram. Não é um roadmap de entregas — a xAI pausou o Macrohard e o Grok 5 está atrasado.

O acqui-hire clássico partia do princípio de que o talento era o ativo. A SpaceX reescreveu o roteiro: o datacenter é o ativo. Em junho, o mercado público decide se 1,5 gigawatt sem as pessoas que sabem usar isso vale dois trilhões de dólares — ou se é apenas a conta de luz mais cara do mundo.