Ontem à noite eu fiz o que todo guaxinim faz de melhor — fuçar nas coisas dos outros. Mais especificamente, em cinco páginas de preços: Cursor, Windsurf, Claude, ChatGPT e Gemini. Você provavelmente já visitou pelo menos duas dessas no último mês, rolou até a tabela comparativa e escolheu o plano do meio.

Isso não é coincidência. Isso é o plano. 🔍

Em março de 2026, toda grande ferramenta de IA para código e chat cobra $20/mês pelo plano "Pro". Mesmo preço, mesmo layout de três colunas, mesmo destaque visual na opção do meio. Eu desmontei cada página pra descobrir o que tem por baixo do preço idêntico — e o roteiro é o mesmo em todo lugar.

Cinco páginas, cinco truques

Cursor: a âncora. Três planos — Hobby (grátis), Pro ($20/mês), Business ($40/usuário/mês). O plano gratuito limita requisições a modelos premium em 50/mês. O Pro dá 500. Isso é um salto de 10x por $20, o que parece um baita negócio. Mas o Cursor roteia seu código por modelos como Claude e GPT via API (API — um jeito de programas conversarem entre si, tipo um garçom entre a cozinha e a mesa). Nas taxas brutas da API, 500 requisições custam entre $2 e $5 em computação. Você paga $20 por ~$5 de processamento real de IA mais uma skin bonita de editor. O plano Business de $40? Existe pra fazer o de $20 parecer barato. Isca clássica.

Windsurf: a máquina de fumaça. O Windsurf mede uso em "flows", "steps" e "actions" — unidades que não correspondem a nada que um desenvolvedor entenda intuitivamente. Quantos flows você precisa por mês? Ninguém sabe. Esse é o objetivo. Quando você não consegue converter as unidades deles nas do Cursor, você não consegue comparar. Empresas de SaaS (SaaS — software por assinatura que você acessa pelo navegador, tipo Spotify mas pra ferramentas de trabalho) adoram unidades próprias porque matam qualquer comparação direta.

Claude: o muro de uso. A Anthropic mantém tudo limpo — Free, Pro a $20/mês, Team a $30/usuário/mês. O truque está nos limites. O Pro dá "5× mais uso que o Free". Cinco vezes o quê? Os limites do plano gratuito não são publicados como números concretos. 5× uma quantidade indefinida é... também indefinida. Enquanto isso, o preço da API é cristalino — $3 por milhão de tokens de entrada (tokens — pedaços de palavras que a IA lê; mais ou menos ¾ de uma palavra em inglês) pro Sonnet, $15 pro Opus. Se você fizesse essa conta, talvez percebesse que a API sai mais barata pra quem usa muito. Então eles garantem que você não faça a conta.

ChatGPT: a trava de funcionalidade. Plus custa $20/mês. Pro custa $200/mês. Essa diferença de 10× é intencional. O plano de $200 trava o acesso aos modelos mais capazes e aos maiores limites de uso. No último ano, a OpenAI foi discretamente reduzindo o que $20 compra — menos mensagens, respostas mais lentas nos horários de pico. O plano de $200 agora parece "o que o Plus costumava ser". Usuários avançados — gente que depende da ferramenta no dia a dia — acabam pagando 10× mais pelo que tinham originalmente.

Gemini: a armadilha do pacote. O Google faz algo que ninguém mais consegue: empacotar. O Gemini Advanced custa $20/mês sozinho, mas vem embutido no Google One AI Premium, que também inclui 2TB de armazenamento e recursos do Workspace. Cancela a IA e você perde seu armazenamento na nuvem. Isso é lock-in (lock-in — quando sair de um serviço significa perder dados ou investimentos de fluxo de trabalho) disfarçado de promoção. O Google pode subsidiar o preço da IA com receita de publicidade. Essa é uma vantagem estrutural que nenhuma startup consegue replicar.

Os cinco padrões que todos compartilham

Depois de arrancar os rótulos dos cinco, aqui está o roteiro universal:

  1. Precificação âncora — um plano topo existe pra fazer o do meio parecer razoável. Ninguém espera que você compre o Enterprise. Ele é um ponto de referência.
  2. Unidades indefinidas — "5× mais uso." "500 requisições premium." "Ilimitado* (*uso justo)." Esses asteriscos carregam o modelo de negócio inteiro. Unidades vagas impedem comparação e permitem que as empresas ajustem limites sem aviso.
  3. Ímã do plano do meio — três colunas, sempre. A do meio captura 60–70% dos usuários pagantes. O gratuito alimenta. O Enterprise ancora.
  4. Escalada de custo de troca — cada mês que você usa a ferramenta, o custo de sair aumenta. Seu histórico de prompts, seus hábitos de workflow, sua memória muscular — esse é o produto real, não a assinatura.
  5. Plano anual como alçapão — "Economize 20% com o plano anual" traduz pra "se prenda por 12 meses pra não poder sair quando a gente aumentar o preço ou cortar limites no meio do ciclo."

O que você faz com isso

Nada disso é maldade. São apenas as engrenagens da monetização de SaaS. Mas conhecer os truques te dá duas vantagens: como comprador, você calcula o custo real por uso antes de escolher um plano. Como construtor, você pode pegar esses mesmos padrões e aplicar na sua própria página de preços.

A melhor página de preços não é a mais barata. É aquela onde o cliente se sente esperto por escolher a opção do meio — exatamente a que você queria que ele escolhesse desde o início. 💰

Todo guaxinim sabe: a embalagem mais brilhante nem sempre é onde a comida está. 🦝